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São Roque, SP, Brazil
Socióloga (Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais pela Unesp Araraquara e Mestre em Sociologia também pela Unesp Araraquara). Professora de Ensino Superior, Pré-Vestibular e Médio.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Vermelho como o céu


Brilhante filme italiano que discute com muita clareza, simplicidade, as coisas simples da vida, mesmo que falte a nós coisas que consideramos fundamentais, porém, não essenciais.

A bela estética europeia sensibiliza em especial pela linguagem simples e tão próxima da realidade que nos cerca. É uma excelente discussão sobre inclusão, família, sonhos, sobre ser diferente num mundo (aliás, década de 70) que prega o que temos de ser de maneira padronizada.

Só pra terminar, agora menos, mas o caso de Césare Batistti já estava enchendo o saco! Muito melhor reler essa época regado a um cinema de ótima qualidade (baseado em fatos reais). Vale a pena. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cama e Poder

Não é nada do que estão pensando...

Segue uma reflexão interessante de José de Souza Martins, publicada no Estadão de hoje (03/01/2010). O artigo traz à tona questões fundamentais para pensarmos na sociedade brasileira: cidadania, relações de poder e como aqui tudo se encaminha de uma forma "sui generis".


  
Cama e poder

(José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo)

Em agosto de 1620, chegou à vila de São Paulo a notícia de que, no Cubatão, aprestava-se para subir a Serra do Mar, com destino ao planalto, o ouvidor Amâncio Rebelo Coelho. Vinha em visita de correição, como era costume, os juízes de fora verificando e corrigindo as decisões dos juízes ordinários, os juízes de dentro. Era questão de dias para que o magistrado assomasse às portas da vila, deitado em rede e carregado no lombo de índios sujeitos à servidão.
Os oficiais da Câmara ficaram alvoroçados. Como hospedar o visitante? Seria hospedado na casa da Câmara e cadeia, casinha jeitosa como se vê num desenho de 1628. Mas não havia cama para o hóspede. Não fazia muito tempo, os índios de Piratininga, avós próximos dos paulistas de 1620, dormiam no chão de terra, em cima de folhas ou de esteiras. Os brancos, quando muito, dormiam em rede ou catre de varas. A única cama decente na vila era a de Gonçalo Pires, carpinteiro e empreiteiro de obras, homem abonado que tinha a seu serviço aprendizes e índios. Mas o carapina nem queria ouvir falar em ceder a cama: não a emprestava nem a alugava. O juiz determinou, então, o seu confisco temporário. Vieram seis índios e homens armados e a carregaram, com colchão, cobertor, lençol de algodão e travesseiro. Passada a visita do ouvidor, mandaram que o dono fosse buscá-la. Ele se recusava. Passaram-se meses e anos e o carpinteiro não recebia a cama de volta nem o aluguel que por ela lhe ofereciam. Queria a cama no estado em que a levaram. Passados seis anos, a pendência continuava. Depois disso não se tem mais notícia nem da cama nem de Gonçalo Pires, autor desse prenúncio de cidadania antes que cidadãos existissem por estas e por outras bandas.
Aqui em São Paulo, os problemas que uma cama pode criar para o governo não terminaram com Gonçalo Pires. Em 1962, quando houve a chamada ''guerra da lagosta'', os franceses pescando lagosta indevidamente na costa brasileira, os brasileiros reagindo até com samba que falava que a lagosta é nossa. Em conversa com o nosso embaixador, ao saber do fato, o presidente Charles De Gaulle comentou que "o Brasil não é um país sério". Não obstante, foi De Gaulle, em 1964, convidado a visitar São Paulo pelo governador do Estado.
Alguém alertou, porém, que o general não caberia nas caminhas convencionais do Palácio dos Campos Elísios, na região central. Corre daqui, pensa de lá, e resolveu o governo encomendar ao competente Liceu de Artes e Ofícios a cama rígida e ampla que poupasse o venerado herói da França da ameaça de Procusto, de ter as pernas amputadas para numa cama caber. Se o Liceu fizera as pesadas e robustas portas da catedral, podia fazer a cama do general. E assim foi. Não só o general imenso e suas pernas longas acomodaram-se bem no leito de Estado, como também o seu imenso nariz.