Quem sou eu
- Agnes Cruz
- São Roque, SP, Brazil
- Socióloga (Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais pela Unesp Araraquara e Mestre em Sociologia também pela Unesp Araraquara). Professora de Ensino Superior, Pré-Vestibular e Médio.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Retornando...
Os sábios geralmente morrem loucos.
Os tolos morrem sufocados pelos conselhos.
Morre-se de idiotice quando se raciocina demais.
Alguns morrem por sentir tudo,
Outros morrem por não sentir nada.
Alguns são tolos porque não morrem de sentimento,
E outros são tolos porque morrem de sentimento.
É bobagem sucumbir por excesso de inteligência.
Alguns morrem por entender tudo,
E outros vivem por não entender nada.
Embora muitos morram de tolice,
Poucos tolos chegam a morrer de fato,
Pois poucos começaram a viver
Sobre o Autor: Baltasar Gracián
Nascido na Espanha, foi prosador, teólogo e filósofo do século XVII.Foi uma pessoa importante, por ser considerado o líder do conceptismo, um estilo literário sóbrio e conciso. Quando escrevia sobre a ética da vida usava um pseudônimo. Ao descobrirem foi punido com a proibição de publicar e perda da cátedra. Influenciou pessoas como La Rochefoucauld, Voltaire, Lacan, Schopenhauer e Nietzsche.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Fala de índio mexicano quando da "comemoração" dos 500 anos do descobrimento de América pelos europeus
Eu, Guaicaipuro Cautémoc, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, vim aqui encontrar os que nos encontraram há apenas 500 anos. O irmão advogado europeu me explica que aqui toda dívida deve ser paga, ainda que para isso se tenha que vender seres humanos ou países inteiros. Pois bem! Eu também tenho dívidas a cobrar. Consta no arquivo das índias ocidentais que entre os anos de 1503 e 1660, chegaram à Europa 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata vindos da minha terra!... Teria sido um saque? Não acredito. Seria pensar que os irmãos cristãos faltaram A seu sétimo mandamento. Genocídio...? Não. Eu jamais pensaria que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão. Espoliação...? Não. Seria o mesmo que dizer que o capitalismo deslanchou graças à inundação da Europa pelos metais preciosos arrancados de minha terra! Vamos considerar que esse ouro e essa prata foram o primeiro de muitos empréstimos amigáveis que nós, índios, fizemos à Europa. Achar que não foi isso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que me daria o direito de exigir a devolução dos metais e a cobrar indenização por danos e perdas. Prefiro crer que nós, índios, fizemos um empréstimo a vocês, europeus. Ao comemorar o quinto centenário desse empréstimo, nos perguntamos se vocês usaram racional e responsavelmente os fundos que lhes adiantamos. Lamentamos dizer que não. Vocês dilapidaram esse dinheiro em armadas invencíveis, terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo. E acabaram ocupados pelas tropas da OTAN. Vocês foram incapazes de acabar com o capital e deixar de depender das matérias primas e da energia barata que arrancam do terceiro mundo. Por isso, meus senhores da Europa, eu me sinto obrigado a cobrar o empréstimo que tão generosamente lhes concedemos há 500 anos. E os juros. Não, não vamos cobrar de vocês as taxas de 20 a 30 por cento de juros que vocês impõem ao Terceiro mundo. Queremos apenas a devolução dos metais preciosos, mais 10 por cento sobre 500 anos. Lamento dizer, mas a dívida europeia para conosco, índios, pesa mais que o planeta Terra!... E vejam que calculamos isso em ouro e prata. Não consideramos o sangue derramado de nossos ancestrais! Sei que vocês não têm esse dinheiro, porque não souberam gerar riquezas com nosso generoso empréstimo. Mas há sempre uma saída: entreguem-nos a Europa inteira, como primeira prestação de sua dívida histórica.
terça-feira, 15 de março de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
Carnaval políticamente correto

Por Nelson Motta - O Estado de S.Paulo
Como seu próprio nome antecipava, o bloco carnavalesco "Que merda é essa?", usando camisetas com Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, enfrentou protestos irados de militantes que denunciaram o escritor por racismo contra Tia Nastácia e recomendaram ao Ministério da Educação o seu banimento das escolas públicas.
Com o avanço do politicamente correto, "Índio quer apito" será um dos próximos alvos, pela forma pejorativa de se referir aos nossos silvícolas, os verdadeiros donos da terra brasileira, enganados e explorados pelos brancos.
Por seu desrespeito à diversidade sexual e sua homofobia latente, Cabeleira do Zezé não deverá mais ser cantada nas ruas e em bailes, por estimular preconceitos contra homossexuais. Nem Maria Sapatão, a correspondente feminina da violência homofóbica contra o Zezé ("Corta o cabelo dele!" ). Além da ofensa ao profeta Maomé, ao compará-lo a um gay cabeludo. Por muito menos Salman Rushdie teve de passar anos escondido da fúria islâmica.
Precursor do politicamente correto, o fundamentalismo islâmico exigirá a proibição de Alá-Lá-Ô por usar com desrespeito o Nome Supremo em festas devassas e ofender o Islã. Um aiatolá dos Emirados Sáderes pode até emitir uma fatwa condenando os autores da blasfêmia à morte.
Pelo uso do termo pejorativo e racista "crioulo" não escaparão da condenação nem os ilustres afro-brasileiros Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho e Jair do Cavaquinho, criadores do clássico Quatro Crioulos, em 1965. Além da palavra maldita, a música diz que eles ocupam boquinhas públicas, em plena ditadura:
"São quatro crioulos inteligentes / rapazes muito decentes / fazendo inveja a muita gente / muito bem empregados numa secretaria ?"
O Samba do Crioulo Doido, de Sérgio Porto, é pior: por sugerir que a burrice e a ignorância seriam exclusivas dos negros e associá-las ao mundo do samba. Puro preconceito: a estupidez não escolhe cor e também abunda no rock, na política e no esporte. E cada vez mais nos meios acadêmicos racialistas e politicamente corretos.
Bom carnaval multicultural!
Fonte: http://www.estadao.com.br/
domingo, 27 de fevereiro de 2011
A política e os desafios diários...
Este ano, aliás, como nos demais dedicados à docência, não há como fugir, nas aulas, sejam de sociologia ou ciência política, do espinhoso e ao mesmo tempo fascinante mundo da política. A grande dificuldade em se discutir ou provocar o debate sobre o tema depara-se no fato de que, para nós ela já é carregada de uma símbologia negativa, tal como a charge o ilustra acima.
O desafio encontra-se justamente no fato de tentarmos interpretar os fatores que levaram a tal imagem e sem dúvida, a sociedade brasileira nos dá uma aula de como as coisas “chegaram ao pé” onde estão hoje. A cada ano, o desafio que se coloca é despertar, em especial nos alunos mais jovens um espírito de que a política sofre justamente de um mal que nos é muito particular: aqueles que tem os meios para modificá-la e transformá-la renegam participar da mesma, isto é, a política hoje sofre esse impacto negativo justamente pela falta daqueles que mais contribuiriam para dar pleno sentido à ela: mentes críticas, pensantes e com espírito de mudança e transformação. Por isso a política é uma atividade para a qual se pensa não ser necessária nenhuma preparação.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
A Revista Veja e o "Golpe Militar" no Egito
Não foi nenhuma surpresa deparar-me, semana passada com esta capa da Revista Veja. Comparar a renúncia de Mubarak a um Golpe Militar tem muito a ver com o estilo (dos mais preferidos) da revista. Se aquilo o que ocorreu no Egito, aliás uma clamação popular, uma insatisfação geral (e numerosa, diga-se de passagem) popular, foi um golpe (será que da esquerda?) acho que não sei mais sobre o que tanto aprendi e tanto li: Ciência Política. É claro que não posso exigir de um veículo de comunicação os pormenores desse imenso universo que cerca o mundo da política, porém, afirmar que, tratou-se de um golpe, requer explicações viáveis e ninguém precisa ser em expert na ciência do poder e suas instituições para saber do "equívoco indigesto", senão infeliz da Revista.
Acredito que nós "ocidentais" possamos tirar alguns ensinamentos básicos daquilo que afirmamos ser a democracia por aqui, começando pela primeira lição egípicia desse fevereiro de 2011.
Agnes Cruz de Souza
Cursinho Popular da Etec de São Roque abre inscrições
Depois de apresentar excelentes resultados com o ingresso de diversos alunos em faculdades públicas, o Cursinho Etec Popular de São Roque (CEP-SR), parceria entre a Prefeitura local e o Centro Paula Souza (Escola Técnica), inicia, na próxima semana, as inscrições para o Curso Pré-vestibular Extensivo 2011.
O período de Inscrição será de 23 de fevereiro a 04 de março de 2011, de segunda a sexta-feira, no horário das 9h às 12h; 13h30 às 16h30 e 18h às 21h, e no sábado (26/02), das 8h às 12h e das 13h30 às 17h, no Prédio da Escola Técnica de São Roque, situada na rua 22 de abril, nº 35 – Jardim Renê, São Roque.
Para se inscrever, o candidato deverá preencher a Ficha de Inscrição, apresentar o original e fotocópia legível dos seguintes documentos: a) Cédula de Identidade (RG); b) Cadastro de Pessoa Física (CPF); c) Histórico Escolar do Ensino Fundamental; d) Histórico Escolar do Ensino Médio (para os candidatos egressos do Ensino Médio); e) Declaração provisória de matrícula na 2ª ou 3ª série do Ensino Médio (para os candidatos que são estudantes do Ensino Médio). A Taxa de Inscrição será 1 (um) quilo de alimento não perecível. Os alimentos arrecadados serão doados a projetos sociais do município.
A seleção dos estudantes constará de análise do Histórico Escolar e uma Prova Objetiva que será realizada em etapa única, no dia 13 de março de 2011, com início às 14h. A prova será constituída por 40 (quarenta) questões, todas elas relativas às disciplinas do Ensino Médio.
Para este ano, serão oferecidas 200 vagas distribuídas da seguinte maneira: 100 no período noturno e 100 vagas para aulas aos sábados. No ato da inscrição o candidato deverá indicar o período que pretende estudar.
As aulas do período noturno serão ministradas de segunda a sexta-feira, das 19h às 22h30, nas dependências da EMEF Dr. Bernardino de Campos (Rua Mal. Deodoro da Fonseca, 132 – Centro – São Roque/SP). As aulas aos sábados serão ministradas das 8h às 18h20 nas dependências da Escola Técnica de São Roque (Rua 22 de Abril, 35 – Jardim René – São Roque/SP).
O Edital completo pode ser consultado no Mural de Informações da Etec de São Roque, situada à Rua 22 de Abril, 35 – Jd. René – São Roque; no site da Prefeitura municipal: http://www.saoroque.sp.gov.br/ e no site da Etec de São Roque: http://www.etecsr.com.br/
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Vermelho como o céu
Brilhante filme italiano que discute com muita clareza, simplicidade, as coisas simples da vida, mesmo que falte a nós coisas que consideramos fundamentais, porém, não essenciais.
A bela estética europeia sensibiliza em especial pela linguagem simples e tão próxima da realidade que nos cerca. É uma excelente discussão sobre inclusão, família, sonhos, sobre ser diferente num mundo (aliás, década de 70) que prega o que temos de ser de maneira padronizada.
Só pra terminar, agora menos, mas o caso de Césare Batistti já estava enchendo o saco! Muito melhor reler essa época regado a um cinema de ótima qualidade (baseado em fatos reais). Vale a pena.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Cama e Poder
Segue uma reflexão interessante de José de Souza Martins, publicada no Estadão de hoje (03/01/2010). O artigo traz à tona questões fundamentais para pensarmos na sociedade brasileira: cidadania, relações de poder e como aqui tudo se encaminha de uma forma "sui generis". (José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo)
Em agosto de 1620, chegou à vila de São Paulo a notícia de que, no Cubatão, aprestava-se para subir a Serra do Mar, com destino ao planalto, o ouvidor Amâncio Rebelo Coelho. Vinha em visita de correição, como era costume, os juízes de fora verificando e corrigindo as decisões dos juízes ordinários, os juízes de dentro. Era questão de dias para que o magistrado assomasse às portas da vila, deitado em rede e carregado no lombo de índios sujeitos à servidão.
Os oficiais da Câmara ficaram alvoroçados. Como hospedar o visitante? Seria hospedado na casa da Câmara e cadeia, casinha jeitosa como se vê num desenho de 1628. Mas não havia cama para o hóspede. Não fazia muito tempo, os índios de Piratininga, avós próximos dos paulistas de 1620, dormiam no chão de terra, em cima de folhas ou de esteiras. Os brancos, quando muito, dormiam em rede ou catre de varas. A única cama decente na vila era a de Gonçalo Pires, carpinteiro e empreiteiro de obras, homem abonado que tinha a seu serviço aprendizes e índios. Mas o carapina nem queria ouvir falar em ceder a cama: não a emprestava nem a alugava. O juiz determinou, então, o seu confisco temporário. Vieram seis índios e homens armados e a carregaram, com colchão, cobertor, lençol de algodão e travesseiro. Passada a visita do ouvidor, mandaram que o dono fosse buscá-la. Ele se recusava. Passaram-se meses e anos e o carpinteiro não recebia a cama de volta nem o aluguel que por ela lhe ofereciam. Queria a cama no estado em que a levaram. Passados seis anos, a pendência continuava. Depois disso não se tem mais notícia nem da cama nem de Gonçalo Pires, autor desse prenúncio de cidadania antes que cidadãos existissem por estas e por outras bandas.
Aqui em São Paulo, os problemas que uma cama pode criar para o governo não terminaram com Gonçalo Pires. Em 1962, quando houve a chamada ''guerra da lagosta'', os franceses pescando lagosta indevidamente na costa brasileira, os brasileiros reagindo até com samba que falava que a lagosta é nossa. Em conversa com o nosso embaixador, ao saber do fato, o presidente Charles De Gaulle comentou que "o Brasil não é um país sério". Não obstante, foi De Gaulle, em 1964, convidado a visitar São Paulo pelo governador do Estado.
Alguém alertou, porém, que o general não caberia nas caminhas convencionais do Palácio dos Campos Elísios, na região central. Corre daqui, pensa de lá, e resolveu o governo encomendar ao competente Liceu de Artes e Ofícios a cama rígida e ampla que poupasse o venerado herói da França da ameaça de Procusto, de ter as pernas amputadas para numa cama caber. Se o Liceu fizera as pesadas e robustas portas da catedral, podia fazer a cama do general. E assim foi. Não só o general imenso e suas pernas longas acomodaram-se bem no leito de Estado, como também o seu imenso nariz.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Mais 2011
"QUEM TEVE A IDÉIA DE CORTAR O TEMPO EM FATIAS A QUE SE DEU O NOME DE ANO, FOI UM INDIVÍDUO GENIAL.
INDUSTRIALIZOU A ESPERANÇA FAZENDO-A FUNCIONAR NO LIMITE DA EXAUSTÃO.
DOZE MESES DÃO PARA QUALQUER SER HUMANO SE CANSAR E ENTREGAR OS PONTOS.
AÍ ENTRA O MILAGRE DA RENOVAÇÃO E TUDO COMEÇA OUTRA VEZ, COM OUTRO NÚMERO E OUTRA VONTADE DE ACREDITAR QUE DAQUI PRA FRENTE VAI SER TUDO DIFERENTE".
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
2011
Um ótimo 2011 a todos e votos de que cada um de nós possa fazer sempre o melhor, independente da causa !
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
Análise coerente sobre a crise no RJ
Até agora, um dos mais coerentes artigos e escrito por alguém que tem autoridade no assunto: Luiz Eduardo Soares, cientista político e antropólogo, Professor da UERJ e da Estácio de Sá, ex-secretário nacional de segurança; coautor de Cabeça de Porco, Elite da Tropa, Espírito Santo e Elite da Tropa2.
A crise no Rio e o pastiche midiático
Luiz Eduardo Soares
Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.
Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:
(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.
(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial.
(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.
Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:
(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?
Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?
Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.
A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.
A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.
(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?
Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.
Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.
Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.
Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.
(c) O Exército deveria participar?
Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.
(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?
Claro. Mais uma vez.
(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?
Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.
Palavras Finais
Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.
O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.
Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?
As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.
E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.
O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.
Disponível em: http://luizeduardosoares.blogspot.com/2010/11/crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html Acesso em 27/11/2010.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Filhos... Melhor não tê-los?
Faço a indicação de uma excelente palestra da Psicóloga Roseli Sayão veiculada no Programa Café Filosófico da TV Cultura. A discussão central é sobre o papel da família Contemporânea e a relação pais, filhos e escola. Claro que a palestra ultrapassa os temas, mas trata-se de uma discussão muito pertinente aos nossos tempos mais que modernos e complexo.
domingo, 7 de novembro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
João Carlos Martins
Excelente maestro com uma história de vida fascinante, baseada na luta, persistência e crença no ser humano.
"A vida é feita com a disciplina de um atleta e a alma de um poeta"
"A vida é feita com a disciplina de um atleta e a alma de um poeta"
[João Carlos Martins]
Solano Trindade - O poeta do povo e da resistência negra
Nasceu no dia 24 de julho de 1908, no bairro de São José, no Recife (PE). Além de poeta, foi pintor, teatrólogo, ator e folclorista. Legítimo poeta da resistência negra por excelência. Em 1930, começa a compor poemas afro-brasileiros. Em 1934, participa do I e do II Congresso Afro-Brasileiro, no Recife e Salvador. Em 1936, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro, para divulgação dos intelectuais e artistas negros. Em 1940, transfere-se para Belo Horizonte. Depois chega ao Rio Grande do Sul, fixando-se por um tempo em Pelotas, onde funda com o poeta Balduíno de Oliveira um grupo de arte popular, que não foi avante por causa das enchentes.
Retornou ao Recife em 1941, mas logo foi para o Rio de Janeiro, onde faz sucesso no "Café Vermelhinho". Em 1945, funda o Comitê Democrático Afro-brasileiro, com Raimundo Souza Dantas, Aladir Custódio e Corsino de Brito. Em 1954, está em São Paulo, criando na cidade de Embu, um pólo de cultura e tradições afro-americanas. Em São Paulo também funda o Teatro Popular Brasileiro – TPB, onde desenvolveu intensa atividade cultural voltada para o folclore e para a denúncia do racismo. Em 1955, viaja para a Europa, com o TPB, onde dá espetáculos de canto e dança. Faleceu no Rio de janeiro, em 19 de fevereiro de 1974.
***
Canta América
Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador...
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